A recente realização do encontro “Roda Viva de Saberes”, promovido pela Diretoria de Gestão de Pessoas da Polícia Federal (DGP/PF), voltado à reflexão sobre representatividade, pertencimento e ocupação de espaços de liderança na Polícia Federal, trouxe ao debate institucional temas que merecem atenção permanente.
Ao discutir desigualdades estruturais, diversidade e construção de ambientes mais inclusivos, a atividade reforçou uma ideia essencial: instituições públicas fortes precisam reconhecer talentos, abrir oportunidades reais e permitir que diferentes trajetórias profissionais participem da construção dos rumos institucionais.
Mais do que um debate abstrato, a reflexão sobre representatividade alcança diretamente a forma como a própria instituição distribui espaços de escuta, liderança, desenvolvimento e reconhecimento entre seus servidores. Representatividade significa abrir portas. Pertencimento significa garantir que essas portas não levem a ambientes de exclusão simbólica, subutilização ou invisibilidade funcional.
A Polícia Federal é composta por profissionais de diferentes cargos, formações, origens, experiências e competências. Mesmo nos cargos que exigem formação específica (delegados e peritos), em alguns casos observamos formações anteriores distintas das requeridas pelos cargos que ocupam, de pessoas que já tiveram outra profissão, ou trabalharam em outras forças policiais antes da PF.
Essa pluralidade não deve ser tratada como obstáculo, mas como ativo institucional. Equipes e lideranças formadas por diferentes olhares tendem a decidir melhor, inovar mais e compreender com maior profundidade os desafios concretos da atividade policial.
Essa reflexão dialoga diretamente com a realidade vivida pelos Escrivães de Polícia Federal. O cargo de EPF integra a carreira policial federal e possui natureza policial, analítica, técnica, jurídica e operacional. Ainda assim, historicamente, os escrivães enfrentam reduções indevidas de sua atuação, estereótipos funcionais, limitações informais de acesso a oportunidades e uma percepção institucional muitas vezes incompatível com a realidade contemporânea do trabalho desenvolvido.
A ANEPF tem afirmado de forma permanente que a valorização do EPF não é uma pauta meramente corporativa. Trata-se de uma agenda de modernização institucional. A Polícia Federal passou por profundas transformações tecnológicas, operacionais e organizacionais. O inquérito eletrônico, os sistemas digitais, a gestão de dados, a produção audiovisual de atos, a inteligência aplicada à investigação e a complexidade crescente da atividade policial exigem profissionais cada vez mais qualificados, autônomos e integrados aos processos decisórios.
Nesse contexto, não é razoável que profissionais experientes, capacitados e conhecedores da atividade de polícia sejam mantidos em espaços reduzidos de atuação, com baixa autonomia, poucas perspectivas de desenvolvimento e acesso limitado a funções estratégicas. A falta de oportunidades reais, quando reiterada, não produz apenas frustração individual. Ela compromete a qualidade de vida no trabalho, enfraquece o sentimento de pertencimento e desperdiça capital humano qualificado.
Esse fenômeno se aproxima do que a literatura organizacional chama de rust out: uma forma silenciosa de desgaste profissional causada não necessariamente pelo excesso de trabalho, mas pela subutilização, pela repetição sem propósito, pela ausência de desafios compatíveis com a capacidade do servidor e pela percepção de que o mérito não encontra caminhos reais de reconhecimento. Em carreiras altamente qualificadas, esse tipo de esvaziamento pode ser tão nocivo quanto a sobrecarga (burn out).
Por isso, falar em meritocracia exige cuidado. Meritocracia não pode ser apenas discurso. Ela pressupõe critérios objetivos, transparência, igualdade de acesso, reconhecimento de competências e superação de barreiras baseadas em estereótipos ou hierarquias simbólicas. Quando oportunidades são restringidas por cultura organizacional, tradição informal ou visão reducionista de determinado cargo, o mérito deixa de ser critério e passa a ser exceção.
A diversidade institucional também deve ser compreendida sob essa perspectiva. Não se trata apenas de diversidade demográfica, embora ela seja essencial. Trata-se também de diversidade funcional, técnica e profissional. A Polícia Federal ganha quando aproveita integralmente a experiência de todos os seus cargos.
A ANEPF defende que o debate sobre representatividade e pertencimento alcance também a estrutura interna de oportunidades da instituição. É preciso avançar na construção de ambientes mais justos, saudáveis e eficientes, nos quais o Escrivão de Polícia Federal não seja reduzido a uma imagem ultrapassada, mas reconhecido como profissional policial de alta complexidade, essencial à investigação criminal, à formalização dos atos de polícia judiciária, à legalidade do inquérito e à própria qualidade da atuação estatal.
A modernização do cargo de EPF, a valorização funcional, o combate à discriminação interna, a ampliação de oportunidades e a defesa de critérios verdadeiramente meritórios fazem parte de uma mesma agenda: fortalecer a Polícia Federal como instituição de Estado.
Brasília, 01/06/2026.
