A discussão sobre saúde mental no ambiente profissional vem ganhando força no serviço público, com destaque para dois fenômenos que impactam diretamente o desempenho e o bem-estar dos servidores: o conhecido burnout — relacionado à sobrecarga de trabalho — e o crescente rust‑out, que representa o outro extremo do espectro. Ao contrário do esgotamento, o rust‑out surge da falta de estímulo, propósito ou desafios, levando o profissional à desmotivação silenciosa, mesmo quando a carga de trabalho é tecnicamente "suportável".
No âmbito da Polícia Federal, onde o comprometimento, a prontidão e o preparo técnico são fundamentais para o êxito institucional, a prevenção desses quadros é uma prioridade. Para a ANEPF (Associação Nacional dos Escrivães de Polícia Federal), é essencial debater esses temas à luz da Qualidade de Vida no Trabalho (QVT) e da necessária valorização do cargo de Escrivão de Polícia Federal (EPF).
QVT no centro do debate institucional: do CONAPEF à prática
A pauta da Qualidade de Vida no Trabalho foi amplamente discutida durante o XVIII CONAPEF, em 2023, com a participação de especialistas que ressaltaram a importância de ambientes organizacionais que promovam autonomia, reconhecimento, crescimento e sentido no trabalho. Tais condições são essenciais para mitigar não apenas os efeitos do burnout, mas também do rust‑out, cuja origem está muitas vezes ligada à estagnação funcional e à ausência de perspectivas concretas de evolução.
Ciente disso, a ANEPF reforçou em 2025 o diálogo com a Diretoria de Gestão de Pessoas (DGP/PF) e, em parceria com a instituição, passou a ampliar a divulgação interna dos programas de saúde mental da Polícia Federal. A iniciativa visa aumentar a adesão e a conscientização sobre os recursos já disponíveis para os servidores, fortalecendo o cuidado contínuo com o bem-estar psíquico e emocional dos colegas.
A modernização do cargo de EPF como estratégia de valorização e engajamento
Para além da saúde mental, a valorização do cargo de Escrivão de Polícia Federal é vista pela ANEPF como estratégia estruturante de QVT. A falta de atualização nas atribuições, nos critérios de ingresso e no conteúdo da formação gera um descompasso entre a complexidade real das funções desempenhadas pelos Escrivães e o desenho institucional vigente — o que contribui para o desânimo e o desengajamento de muitos profissionais.
A ANEPF tem atuado de forma firme e propositiva junto à Direção-Geral da PF e à DGP/PF em duas frentes simultâneas e não mutuamente excludentes:
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Modernização do cargo de Escrivão de Polícia Federal, com revisão das atribuições, atualização da nomenclatura, reestruturação do concurso público, atualização curricular do curso de formação e definição clara de competências e responsabilidades, condizentes com o protagonismo crescente da função no ciclo da investigação.
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Unificação dos cargos da carreira policial federal, em linha com o que já ocorre nas Polícias Civis brasileiras desde a promulgação da Lei Orgânica Nacional das Polícias Civis (LONPC), de 2023. A unificação, com ingresso único e posterior especialização, reconhece a multifuncionalidade existente e promove maior integração institucional.
Ambas as estratégias compartilham o mesmo objetivo: reconhecer o valor real da atuação do Escrivão de Polícia Federal e prepará-lo para os desafios operacionais, investigativos e tecnológicos do século XXI. A ANEPF entende que uma via não inviabiliza a outra — pelo contrário, podem ser implementadas de forma coordenada, conforme avanços institucionais e legislativos.
Atuação estratégica da ANEPF: ações concretas em defesa do cargo
Entre as principais iniciativas da ANEPF nos últimos anos, destacam-se:
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✅ Vitória no fim da etapa de digitação no concurso para EPF, reconhecida como tecnicamente obsoleta e descolada das competências modernas do cargo;
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🔄 Revisão e atualização das disciplinas cobradas nos concursos para o cargo, com o objetivo de alinhar o perfil dos ingressantes às reais necessidades da função;
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⚖️ Equalização da carga horária das disciplinas operacionais no Curso de Formação da ANP, buscando isonomia e coerência com as atribuições práticas do Escrivão;
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🤝 Fortalecimento do diálogo com a DGP/PF e com o Diretor-Geral da PF, para tratar diretamente das pautas de modernização funcional, valorização institucional e melhoria da QVT para os EPFs.
Essas ações demonstram que a valorização do Escrivão não se dá apenas no discurso: ela exige intervenção técnica, articulação institucional e visão estratégica, como vem sendo praticado pela atual gestão da ANEPF.
Trabalho com sentido: a melhor política de prevenção
A luta contra o rust‑out e a defesa da QVT têm um ponto em comum: a valorização do sentido do trabalho. Quando o servidor percebe que seu papel é relevante, quando suas atribuições são claras, seu conhecimento é respeitado e suas condições de trabalho são justas, ele se engaja. E servidores engajados significam instituições mais fortes, mais humanas e mais eficientes.
A ANEPF segue atuando por uma Polícia Federal em que o cargo de Escrivão de Polícia Federal seja plenamente reconhecido como pilar da investigação e da justiça criminal no Brasil — e onde a saúde, a motivação e a qualidade de vida no trabalho não sejam exceções, mas fundamentos.
Brasília, 17/12/2025.

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